terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

sem título...

Eu tão isósceles

Você ângulo

Hipóteses

Sobre o meu tesão

Teses sínteses

Antíteses

Vê bem onde pises

Pode ser meu coração


(Paulo Leminski)

Anca

cai despenca

a penca

que pena

cai a chuva

desbarranca desbanca

a anca

esparrama-se

não brota em ramas

cai tropeça se esborracha

apaga ou racha?

escorrega a lágrima

em franca decadência

da descência da eloquência

da sapiência e da ciência

(Anny Raquel)

E no caderno do sítio...

Eu queria aprender

o idioma das árvores

Saber as canções do vento

nas folhas da tarde

Eu queria apalpar os perfumes do sol

(Manoel de Barros)

Isso Sim É Ser Poeta...

Razão de ser

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?

(Paulo Leminski)

Pais


As palavras vem de dentro de um.

Um faz avessas a matemática.

Ele é um, dois e múltiplo.

Essa é uma história de dois.

Um que amou e não suspirou a perda.

O outro que se perdeu na solidão de tanto amar.

O que parou de viver por causa do amor.

O que escolheu viver procurando amor.

Dois que ressuscitam em pó.

O que precisa e não diz.

O que diz o que não sente.

Essa é uma triste história entre dois: amor e dor.

Para que tanta dor? Se há amor.

Há amor após tanta dor?

Essa também pode ser a história de muitos.

Muitos que têm tantas outras dores.

Dores que não são de amores. Mas que doem.

Afinal, porque a dor?

Sim... de fome, de violência, de degradação e miséria. Mas as outras não!

O porque de amar... todos sabemos.

 (Anny Raquel)

O curral com vista para o mar - CONTO


O mar era verde e suas ondas tinham mais de 500 metros de altura.

Ao lado, apenas mistério.

Eram três as vacas, mas a matemática transformaria em cinco mais tarde.

Eram dois os papagaios. Um falava alto e o outro era verde, como o mar.

Mas o que chamava a atenção era sempre o mistério ao lado.

As três vacas que seriam cinco mais tarde não entenderam o porquê: o mistério havia comido sua comida.

Sem nada a fazer, entraram em suas casas com vista para o mar.

Haviam também outros animais nessa praia: eram nove. E a matemática transformaria em onze mais tarde.

Eram eles das espécies caninas, felinas e galináceas, convivendo misteriosamente.

Os cães não entenderam porque os felinos não fizeram as galináceas de seu jantar.

As galináceas não entenderam porque botaram ovos invisíveis.

E o que povoava era apenas segredo.

O papagaio que falava alto explicou em alto e bom som o que acontecia, mas o verde não entendeu.

E assim, com muitas dúvidas e nada a resolver, o mistério reinou.

E se multiplicou como hifas. E dele brotou os mais novos seres da praia: os fungos.

Vacas, caninos, felinos, galináceas e papagaios brindaram a boa vinda, mas continuaram sem suas respostas.

O mistério fora revelado. Era soberano, pois era um reino inteiro e tomava o verde mar para si.

Era fértil, pois sua multiplicação era geométrica.

E em silêncio, renovou e transformou, mas não explicou.

(Anny Raquel)